Filmes

Atenção: A lista dos filmes não é definitiva, logo, estando em constante modificação com novos longas adicionados. Os filmes organizam-se em ordem cronológica de estreia, não de interesse ou importância. Assim como os livros indicados, sempre que possível tenha-os na sua estante!

Observação: Os filmes em formato .rmvb devem ser assistidos pelo programa Real Player, e já vem com legenda inclusa. Os filmes em formato .avi geralmente não possuem legenda, e a legenda em formato .srt sempre será indicada para baixar separadamente. Nesse último caso, para juntar o filme com a legenda, basta colocar ambos os arquivos em uma mesma pasta e com o mesmo nome. (Exemplo: OSaborDaMagia.avi, OSaborDaMagia.srt). O programa que for executar o filme, reconhecerá as informações.

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HAXAN (Benjamin Christensen, 1922)

Enquanto que Fausto de Murnau é baseado em uma obra literária que trata de temas como a Magia e a Alquimia, Haxan - A Feitiçaria Através dos Tempos de Christensen é um pseudo-documentário, ou docudrama, que trata das práticas da Bruxaria de maneira muito fiel tal qual é retratada no imaginário e no folclore da literatura medieval e moderna. O pacto com o Diabo, a nudez ritual, as possessões e o famoso folclore sabático do vôo noturno, são dramatizados de forma bastante intensa que classificam o longa no gênero de terror, explicando sua proibição de exibições em certos países, como nos Estados Unidos, por exemplo.

Christensen defende a ideia de que as crenças e as práticas de bruxaria são resultado de doenças mentais desconhecidas no período medieval e da modernidade quando lembra: “A crença nos maus espíritos, feitiçaria e bruxaria é o resultado de ingênuas noções sobre o mistério do universo”. Ainda que seja uma abordagem histórica recusada hoje em dia, isso não faz com que o longa perca sua beleza mitológica e poética, retratando como nunca antes, o folclore bruxesco e feiticeiro, trazendo ao cinema, o que muitos por muito tempo apenas sonharam.

Tendo as devidas ressalvas históricas e reconhecendo as licenças poéticas desse longa, não há como não apreciar esta obra de arte.

Para assistir: Parte Única pelo Youtube.
Sobre o filme: Mudo, legenda em alemão e inglês.
Palavras-chave: Bruxaria, Feitiçaria, Sabá, Diabo, Inquisição, Idade Média.

FAUSTO (Murnau,1926)

Como primeira sugestão, não poderia ser outro clássico senão Fausto de Murnau. Alemão de 1926, é uma adaptação cinematográfica de uma outra obra de arte, não de menor importância, que é a obra literária Fausto, também do alemão Goethe.

Ambientado no estouro da Peste Negra, Fausto é o mago que olha com tristeza para o homem vulgar que não tem conhecimento do seu potencial. Fausto é a personificação do homem sábio que anseia pelo conhecimento: anseia por conhecer a vida, a morte, a alegria, a ciência e a magia. Quando descobre que já conhece todas as coisas do Universo, surge então o demônio Mefistófeles, que em troca da sua alma lhe ensina o seu maior anseio: o amor. Mefisto (também conhecido amigavelmente) é a própria representação do Diabo, que desafia, ousa, e por isso destrói. Mas, justamente, para uma justa reconstrução ou finalização do ser que é Fausto, ou do verdadeiro potencial humano – que não é mau ou bom, certo ou errado, apenas humano. 

O filme é fortemente caracterizado pelo expressionismo alemão e seu jogo de luz e sombras que dá um tom macabro e sinistro, cuja natureza é, sem dúvida, inseparável da história. Fausto e Mefistófeles são meus heróis e minha inspiração, eu confesso.

Para assistir: Parte Única, pelo Youtube.
Sobre o filme: Mudo, legendas em inglês.
Palavras-chave: Magia, Alquimia, Pacto com o Diabo, Idade Média, Idade Moderna.

METRÓPOLIS (Fritz Lang, 1927)

Metrópolis é um clássico do expressionismo alemão dos anos 20 cuja admiração sobrevive até hoje. Em parte pela criatividade e talento na aplicação de efeitos especiais megalomaníacos para a época, também sem dúvida devido ao seu caráter ideológico e de contexto social profundamente marcado.

A ficção de Lang trata de uma grande cidade do séc. XXI com altos prédios, pontes, transportes voadores e assim por diante, uma cidade organizada sob as mãos de ferro de Joh Fredersen (Alfred Abel), também chamado "Master" pelos seus subordinados. E lá que se encontram o "Jardim das Delícias", onde os filhos dos grandes empresários de Metrópolis desfrutam de uma vida de prazeres e privilegiada. Porém, todo o luxo e funcionamento pacífico da gigantesca cidade é fundamentado nos trabalhadores do submundo que, ao contrário dos que vivem na superfície, são condenados a trabalhar exaustivamente operando enormes máquinas das quais dependem a cidade, uma massa escravizada de trabalhadores que sustentam o luxo de uma relativa minoria no "mundo externo". 

Em seu contexto claramente político, a ficção trata da sociedade claramente sob os moldes da revolução industrial e sob os moldes de concepções de "evolução", "avanço" e "progresso".

Até que Freder (Gustav Fröhlich), filho de Joh Fredersen, que também desfruta dos prazeres do mundo exterior, descobre Maria (Brigitte Helm), uma espécie de líder espiritual dos trabalhadores de Metrópolis que, acidentalmente, leva Freder até o submundo onde, assistindo a explosão de algumas máquinas que acaba trazendo consigo acidentalmente a morte de vários operadores, continua a funcionar alguns minutos depois como se nada tivesse acontecido, com os trabalhadores sendo substituídos por outros novos. Freder se surpreende com o que encontra, até que vai questionar seu pai sobre o funcionamento da cidade, eis que a história começa. 

Uma série de símbolos religiosos entram em questão, tal como as famosas cenas do pentagrama invertido que é desenhado na parede quando entra em cena o Andróide feito à imagem de Maria, ou seja, a supremacia da matéria sobre a ausência do espírito. À porta da casa de Rotwang (Rudolf Klein-Rogge), também inventor do restante das máquinas de Metrópolis, veremos um pentagrama em posição normal, representnado o conhecimento, a sabedoria, a perfeição. Maria, que também profetiza a vinda de um salvador também é interessante nessa esfera do filme. Freder, como o Adão bíblico, vivera no Jardim das Delícias, tal como o Éden ou o Paraíso, e que através do conhecimento que lhe foi trazido por Maria (Eva), descobriu ser inseparável do desejo de liberdade.

"O mediador entre a cabeça e as mãos deve ser o coração".


A construção do Andróide de Maria

  
O homem-máquina torna-se o símbolo do domínio da matéria sobre o espírito.

Na cena, o cientista maravilha-se com sua obra. 

Sobre o filme: Mudo, legendas em português.
Palavras-chave: Sociedade, Romance, Tecnologia, Religião, Revolução Industrial, Futurista.

O MÁGICO DE OZ (Victor Fleming, 1939). 

Mais conhecido cartaz do filme O
Màgico de Oz
, dirigido por Victor
Fleming.
Baseado no livro de L. Frank Baum, O Maravilhoso Mágico de Oz de 1900, o filme só é publicado quase quatro décadas depois, estreando em 1939. O filme já começa com uma mensagem de agradecimento, “àqueles que são jovens de coração” por apreciarem essa obra que em seus 40 anos não havia caído no esquecimento. E cá estamos nós para sugerir que depois de 112 anos ela continua em voga. 

Trata-se de uma história infantil que tem em Dorothy Gale sua personagem principal. Basicamente, Dorothy vive em uma fazenda no Kansas e, acompanhada do seu cãozinho Totó vai parar no mundo mágico de Oz. Lá, auxiliada por uma Bruxa Boa e prejudicada por uma Bruxa Má acaba por encontrar um Espantalho que deseja ardentemente um cérebro, um Homem de Lata que queria um coração e um Leão que sonhava em ter coragem. Os quatro rumam à Cidade das Esmeraldas para pedir ao famoso Mágico que concedessem-lhes esses pedidos. O que Dorothy queria, então, nada mais era do que voltar para sua casa.

Houveram muitas interpretações para a história, que foi desde ver no trabalho de Baum um manifesto ateu, até como um propagandista do populismo político americano. A interpretação em que vamos nos deter aqui, então, trata-se de uma leitura mítica e dos aspectos ocultistas e esotéricos do filme.

Frank Baum foi conhecidamente um adepto da Teosofia. A grossas linhas, podemos resumir a Teosofia como uma corrente filosófica e intelectual, divulgada amplamente por Helena Blavatsky no final do séc. XIX. Estudiosos dessa filosofia procuravam identificar os aspectos esotéricos e místicos nas grandes religiões do mundo, bem como seus aspectos iniciáticos que eram compartilhados como elemento comum. A Teosofia, de certa forma, é um corpus intelectual e oculista que mistura religião, filosofia e ciência. Para analisar a obra de Baum não podemos esquecer disso.

Tanto o escritor do livro quanto sua esposa foram estudiosos da Teosofia. É conhecido o fato de que ambos, já em 1892 já eram membros logo depois de terem mudado-se para Chicago. Se existem elementos místicos e ocultistas em O Maravilhoso Mágico de Oz podemos sugerir, então, que isso não trata-se de coincidência.

ATENÇÃO: A partir daqui existirão spoilers, ou seja, revelações da história. Se você ainda não viu o filme, antes assista e depois leia a análise. Vá direto ao último parágrafo desse post e baixe o arquivo caso não tenha o filme em mãos para assistir.

Aqui, clássica cena de Somewhere over the rainbown. 
A história começa com Dorothy (Judy Garland) na fazenda dos seus tios no Kansas, que é uma metáfora para o mundo material, mundano e profano da existência humana. Acidentalmente Totó morte a vizinha da família de Dorothy e a menina está preocupada com o que vai acontecer. Dorothy tenta falar com sua família sobre o que a vizinha fará com seu cachorro, mas ninguém lhe dá ouvidos: A sociedade não dá ouvidos para quem é verdadeiramente sábio e possui Verdadeiras ambições, mas diferente disso prefere preocupar-se com coisas supérfluas, como cuidar dos pintos ou dos porcos como faziam os tios de Dorothy e os demais trabalhadores da fazenda.

O Louco, no tarot de
Marselha. A falta de bagagem
e o cão seguidor são os
aspectos mais evidentes a
serem relacionados. 
A menina sente-se desiludida e, sozinha, sonha com um lugar melhor. Diz: “não é um lugar onde podemos chegar de barco ou de trem (...) Um lugar onde se não tenha problemas”, ou seja, um mundo onde não se pode alcançar através da matéria e isso representa a Vontade mortal de ascender ao mundo dos deuses. É então que Garland canta a clássica e eternizada Somewhere over the rainbown.

Dorothy foge da fazenda, e a cena em que ela está caminhando, à distância da câmera e levando uma pequena bolsa e uma cesta, mas acompanhada com seu cãozinho é uma clara referência ao Louco do tarot. O Louco não possui bagagem, pois isso representa a ignorância humana e a falta de experiência necessária para empreender uma nova Jornada mística. O cão representa os resquícios de intelecto, de auto-controle e intuição necessária para que a o caminho não seja feito somente de Caos. O Totó para Dorothy é como o Grilo Falante para Pinóquio.

Já longe da fazenda, a menina passar por uma ponte para chegar ao charlatão professor Marvel, e essa ponte representa por si só uma “transição” entre os mundos do lar (mundo interior) e do mundo exterior. O homem convida-a para entrar e vemos no quarto do professor um local cheio de simbolismos interessantíssimos. Possui uma caveira na porta, e isso representaria a Morte que guarda a transição entre os Mundos. Para submeter-se à Iniciação, é necessário morrer para só depois, no mundo divino, renascer. A caveira lembra que tudo morre, tudo tem um fim, inclusive o homem profano (aqui representado pela ingenuidade de Dorothy e da falácia do professor Marvel).

Ao fundo, veja o pentagrama invertido.
Dorothy e Marvel
Em certo momento o homem senta em sua cadeira, entre duas velas acesas, o simbolizaria a dualidade de todas as coisas: bem X mal, masculino X feminino, luz X trevas. O homem assiste sua bola de cristal em busca de notícias. Quando a câmera dá um zoom em Dorothy, vemos no papel de parede um pentagrama invertido, que representa a superioridade do material (duas pontas) sobre o espiritual (uma ponta). Afinal, independente da pose, o professor Marvel também não é um Bruxo, ainda é um humano.

Dorothy desiste de fugir de casa, e no seu retorno à fazenda, surge um tornado que leva a casa da menina aos céus. O tornado em espiral, em sentido ascendente, simboliza a Kundalini ou as serpentes do caduceu de Hermes que se entrelaçam e simbolizam a ascensão divina. Também podemos fazer uma clara relação ao Cone do Poder dos rituais da Wicca. Assim como Dorothy vai aos céus, como “em êxtase”, depois ela cai, como o praticante da Wicca também faz, após dançar no Círculo mágico e faz então o “aterramento” da energia.

A menina desmaia no meio do tornado, e acorda quando tudo já está silencioso. E esse é um momento de extrema importância, de uma beleza única caracterizado magistralmente no filme. O momento em que Dorothy levanta, sai do quarto e abre a porta para a rua e chega finalmente a Oz é quando o filme passa a contar a história em cores. Sai do sépia e vai para o technicolor. E nós aqui bem sabemos que é exatamente essa a sensação de quando abrimos um Círculo mágico ao nosso redor, de quando abrimos os olhos depois da Iniciação, de quando verdadeiramente tivemos um contato direto com alguma divindade. Eu arriscaria dizer que a prática da Bruxaria consiste em ver o mundo em cores, mas o Bruxo ou a Bruxa oscila entre os mundos sépia e colorido. O mundo sépia ou preto-e-branco é o mundo humano. O mundo colorido, é o mundo mágico ou divino.

Dorothy se surpreende ao ver o mundo de Oz pela primeira vez. 
Aqui, todos os personagens “reais” se desdobram no mundo mágico de Oz. A vizinha malvada, que tornou-se a Bruxa Má do Oeste e mais tarde veremos que o Espantalho, o Homem de Ferro e o Leão também sãos os trabalhadores da fazenda. E isso nos mostra que todos podemos oscilar entre o mundo mágico e mortal, mas nem todos têm consciência disso.

Dorothy descobre que, sem querer, matou a Bruxa Má do Leste tornando-se uma heroína em Oz. Surge então a Bruxa Boa do Norte. Essa Bruxa não tem dúvidas de que Dorothy também é uma bruxa, mas a menina não tem consciência disso. Pergunta se Dorothy é uma bruxa boa ou má. Ela, que não sabe o que é, diz que não é nem uma coisa nem outra. A menina se surpreende ao descobrir que existem bruxas belas.

É então que surge a Bruxa Má do Oeste, e promete vingar a morte da irmã, mas sobre ela falaremos mais tarde. Dorothy descobre que para voltar pra casa, precisa pedir isso ao Mágico de Oz, e então começa o caminho percorrendo a estrada de tijolos amarelos.

Interpretada por Margaret Hamilton, a imagem da bruxa verde (que não aparece no livro) ficou eternizada como o arquétipo de "bruxa má".

Uma estrada em espiral, que mostra mais uma vez o caminho para a Jornada mística. Em certo momento, antes de conhecer o Espantalho, Dorothy está de frente para um caminho trifurcado. O três, bem sabemos, é um número especial: Passado, presente e Futuro; Inferno, Terra e Céu, e daí por diante. Hécate, deusa que possui as chaves dos caminhos frequentemente é retratada com três faces. O cão Cérberus que guarda a entrada do Hades também tem três cabeças. Dorothy, então, não se preocupa muito sobre o caminho que irá tomar. No fundo ela sabe, assim como todas Bruxas, que todos os Caminhos levam a um só final.

O caminho tripartido.
É ao longo dessa Jornada que Dorothy conhece o Espantalho, O Homem de Ferro e o Leão, que formam um quarteto que não pode ser deixado de lado quando lembramos da “pirâmide das bruxas”: saber, querer, ousar e calar. O saber é representado pelo Espantalho que queria um cérebro. O querer, pelo Homem de Ferro que queria um coração, pois o Amor é a motivação de toda Criação. O Ousar é simbolizado pelo Leão que queria coragem. O Calar, por fim, é a ambição (ainda que inconsciente) de Dorothy: calar seus impulsos desmedidos, sua ambição infantil, sua natureza humana e profana. Ela calou quando tentara reclamar da vizinha no começo do filme e também calou quando sua família não acreditou na sua história no final. Ou seja: depois da Jornada no mundo divino, a Bruxa volta para a terra profana, e aqui deve calar, pois nem todos entendem a linguagem do mundo mágico.

O saber, querer, ousar e calar podem perfeitamente ser representados pelos quatro neófitos da Jornada. 
Mais tarde, no Caminho, a Bruxa Malvada do Oeste faz com que Dorothy fique inebriada pelo aroma das papoulas e acaba, então, adormecendo. Sabemos que é dessa instigante flor que se produz o ópio. A papoula, então, simboliza o sonho, o sono profundo, bem como o submundo. Antes de seguir viagem, então, Dorothy precisa descansar, descer até o submundo para seguir adiante em sua jornada.

Depois de um tempo, eles finalmente chegam à Cidade da Esmeraldas, mas não chegam ao Mágico com facilidade. Todos depositam uma extrema confiança no Mágico, mas nem todos sabem exatamente quem é ou o que faz. Aqui, o Mágico representa Deus como é visto pelo senso comum judaico-cristão: uma autoridade máxima, perfeita, distante e que pode tudo. Autoritário, não dá explicações, nem interage com aqueles que supostamente “criou”. O filme mostrará que esse “Deus” não será suficiente para a Iniciada. “Eu nunca vi o Mágico” confessa o porteiro da cidade. “Então como sabe que ele existe?” alguém pergunta. “Ah, não me façam perder o tempo” ele responde.

Mais tarde, a Bruxa Malvada aparece mais uma vez e escreve nos céus, com uma fumaça, “renda-se Dorothy”. Todos ficam alvoroçados e vão correndo perguntar ao Mágico. Um homem que serve de intermediário (como os sacerdotes das grandes religiões) responde à população desenfreada: “está tudo bem, voltem para suas casas” mesmo sem saber exatamente o que está acontecendo. As ordens são de que ninguém pode ver o Mágico, o que reproduz o pensamento senso-comum do catolicismo, por exemplo, onde são somente os sacerdotes que podem alcançar a Deus, não ficando isso possível ao homem comum.

Enquanto o leão ficou cantando sua coragem, que receberia do Mágico, não puderam entrar no castelo. Foi só quando Dorothy, em sua humildade, lamentou e reconheceu sua perda, que puderam atravessar o portal. E aqui nos lembramos da Carga da Deusa: “Que haja beleza e força, poder e compaixão, honra e humildade, júbilo e reverência dentro de ti”. Se não existe a consciência dessas dualidades, não é possível submeter-se à Iniciação.

Mais tarde conhecem finalmente o Mágico que conceder-lhes-ia os desejos caso conseguissem roubar a vassoura da Bruxa Malvada. Os quatro conseguem essa empreitada, com Dorothy matando a Bruxa no final. Eles voltam ao castelo do Mágico e descobrem que trata-se de um falsário, mas ainda assim, mostra ao Espantalho, ao Homem de Ferro e ao Leão que tudo o que sempre quiseram, estava dentro deles. Também na carga da Deusa, encontramos: “Jamais encontrará fora aquilo que não tiver dentro de si”.

O Mágico promete voltar para o Kansas com Dorothy, mas Totó (a sanidade e a intuição de Dorothy) foge do balão, e o Mágico segue sozinho seu rumo. Isso representa as falácias e as “promessas vazias das religiões organizadas” como já foi dito.

Dorothy se surpreende quando descobre o "Mágico".

A Bruxa Boa do Norte diz para Dorothy: “Você sempre teve o poder de voltar para o Kansas” quando lhe diz que bastava bater os calcanhares e fazer o pedido. “Então porque não havia contado antes?” lhe perguntam. “Porque não teria acreditado em mim” responde a Bruxa Boa. Ou seja, antes da Jornada, Dorothy não tinha consciência da sua divindade.

Confessa no final que “não há lugar melhor que nosso lar”, mas agora reconhece isso pois volta ao mundo humano mais uma vez, torna-se sépia novamente. Mas volta não como mortal, mas como Iniciada. Sua família e os tios representam a sociedade profana, que continuam não acreditando no sonho da criança.

Agora, sobre a Bruxa Malvada do Oeste: A bruxa sempre foi, nessa e em quase todas as histórias, aquelas personagens que, não fossem suas ações, nunca desencadeariam um “final feliz” para os personagens principais. Inicialmente, devemos ter em mente que se não fosse a vizinha malvada que queria levar Totó embora, Dorothy talvez não tivesse chegado ao mundo de Oz.  Foi a vizinha quem levou Totó, guardou-o numa cesta, mas não prendeu-o, o que proporcionou a fuga do cãozinho e a fuga de Dorothy da fazenda. Se não fosse a bruxa escrever o nome de Dorothy no céu, ela também não poderia entrar no castelo do Mágico.

“Eu sou a única que sei usar os sapatos, você não”, disse a bruxa, pois tinha consciência da mortalidade de Dorothy até o início da história. A bruxa também deixou Dorothy descansar com as papoulas, ou seja, lhe proporcionou um repouso e uma descida até o submundo para só então seguir adiante.

Os sapatos de Dorothy, assim como as sandálias de Hermes, simbolizam sua capacidade de oscilar entre os mundos.
A morte das Bruxas do Leste e do Oeste simbolizam a morte do ser profano de Dorothy, como se pudéssemos simbolizar isso com uma linha em sentido horizontal. A Bruxa do Norte representa sua ascensão ao mundo divino, e sendo assim, em sentido norte-sul, em uma linha vertical, poderíamos supor que Dorothy, então, tornou-se a Bruxa do Sul, vivendo no mundo mortal e humano, mas com a experiência de conhecer o espiritual e mágico e podendo transitar entre ambos.

Para assistir: Parte Única, pelo Uploaded ou Parte Única pelo Filevelocity.
Sobre o filme: Preto e branco, colorido. Áudio em inglês, legendas em português.
Palavras-chave:
Iniciação, Jornada, Bruxaria, Fantasia, Modernidade

CASEI-ME COM UMA FEITICEIRA (René Clair, 1942)

Em “I Married a Witch”, Veronica Lake literalmente encarna uma típica bruxa femme fatale da comédia romântica: Jennifer. Tendo sido condenada à fogueira no século XVII por prática de bruxaria, junto ao seu pai Daniel (Cecil Kellaway), reencarna novamente em 1942, junto à alma de seu pai. Jennifer encontra um descendente de Wooley, que havia lhe denunciado, levando-a para fogueira. Decide então, com a ajuda do seu pai, por seduzir Wallace Wooley (Fredric March) que atualmente encontra-se às vésperas do seu casamento e vingar-se pelo assassinato de alguns séculos atrás que acontecera por culpa dos seus ancestrais. Porém, em uma série de situações engraçadas um feitiço vira contra a feiticeira levando a um final, no mínimo, engraçado.

Particularmente gosto das cenas em que, logo depois de terem os espíritos libertados, pai e filha – ainda incorpóreos – analisam a sociedade estadunidense em que se encontram. “Olhem como dançam, como tudo mudou. Nunca imaginei que veria roupas como essas na Nova Inglaterra.” Diz Jennifer. “Não podem ser descendentes daqueles puritanos que conhecemos” completa o pai, Daniel. Ainda sem forma física, Jennifer comenta “Seria bom ter lábios. Lábios para sussurrar mentiras... lábios para beijar um homem e fazê-lo sofrer” representando a bruxa folclórica como a perturbadora e causadora do caos – não sendo diferente da outra vida, em que destruía as colheitas da vizinhança e fazia com que as vacas não dessem mais leite. Ainda como espectros, depois de colocar fogo no Hotel em que Wooley está hospedado, assumem forma física para dar prosseguimento aos seus planos.

Gosto da criatividade dos efeitos especiais dessa época.
“She knows all about love potions... and lovely motions!” 
Para assistir: Parte Única, pelo Youtube.
Sobre o filme: Preto e branco, áudio em inglês, legendas em português.
Palavras-chave: Feitiçaria, Maldição, Romance, Poções de Amor, Contemporaneidade.

SORTILÉGIO DE AMOR (Richard Quine, 1958)

"Bell, Book and Candle" é mais um típico romance da feitiçaria tratada na década de 50 e 60: A bruxa Gillian Holroyd (interpretada por Kim Novak) é uma femme fatale que não pode apaixonar-se, pois se assim fosse, perderia seus poderes.

Gillan é a solitária dona de uma loja de objetos de arte e de esculturas africanas. Nas vésperas de uma noite de natal acaba conhecendo Shepherd Henderson (James Stewart), seu novo vizinho. Gillan, em companhia da sua tia e irmão, também feiticeiros, convida Henderson a ir ao Zodiac, um espécie de pub alternativo para quem não costuma comemorar um natal tradicional. Henderson leva sua então esposa, e então descobrem que Merle Kittridge (Janice Rule) na época da faculdade era rival de Gillan. A bruxa coloca um feitiço na mulher, até que Merle e Henderson decidem ir embora. Mais tarde, Henderson volta ao apartamento de Gillan, e a bruxa com a ajuda do seu espírito familiar na forma do gato Pyewacket enfeitiça o mortal. Henderson mais tarde separa-se da esposa e decide casar-se com Gillan que, surpresa, tem de decidir entre seus poderes feiticeiros e o amor humano, afinal, o mortal acabara se apaixonando por Gillan, ainda que essa última quisesse somente fazer com que sua rival sofresse um pouco.

Assim como em "I Married a Witch" (1942), e até, em certo grau em "Bewitched" (primeira temporada em 1964), mais uma vez observamos a dicotomia do amor bruxo X amor mortal, sendo a mulher feiticeira uma femme fatale que sempre é superior ao mortal humano. De certa forma é uma releitura do romantismo clássico na forma da divinização (ou até demonização) do feminino. Não é com dificuldade que percebemos uma clara relação com questões sociais contemporâneas, tais como a liberação feminista (a mulher bela, fatal e sedutora) ou da contra-cultura da década de 60 e do movimento beat dos intelectuais norteamericanos dos anos 50 (no filme de Quine, o pub Zodiac onde veremos apresentações artísticas em francês é um bom exemplo).

E a título de curiosidade, o gato Pyewacket recebeu seu nome em referência a um espírito familiar de uma bruxa da cidade de Manningtree  (Essex , Inglaterra) descoberto mediante tortura por Matthew Hopkins, famoso caçador de bruxas e autor do tratado The Discovery of Witches de 1647.

Recebeu indicações de melhor figurino e direção de arte. "Sortilégio de Amor", ainda que não seja inovador e nem muito sedutor aos olhos atuais, é um clássico no assunto.

Sobre o filme: Colorido, áudio em inglês e francês, legendas em português. 
Palavras-chave: Animais familiares, FeitiçariaRomance, Contemporaneidade.

A FONTE DA DONZELA (Ingmar Bergman, 1958)



Jungfrukällan, como é conhecido no original, tornou-se um dos meus filmes prediletos. Primeiro porque traz a questão da convivência paganismo-cristianismo, segundo e consequentemente porque trata de questões simbólicas e do imaginário, e por fim, por trazer traços muito fortes do expressionismo.

O filme conta a história da família de Herr Töre (Max von Sydow, o Padre do Exorcista) e Märeta Töre (Birgitta Valberg), camponeses cristãos de uma baixa Idade Média. A história começa com Ingeri (Gunnel Lindblom), bastarda e serviçal da família, às escondidas, fazendo uma invocação a Odin, enquanto que a cena é quebrada com o casal Töre orando para Jesus morto na cruz frente ao altar da casa. Isso já revela a tensão da justaposição paganismo-cristianismo, sendo que o primeiro é marginal e periférico, e o segundo, a crença "oficial". Mais tarde, Karin Töre (Birgitta Pettersson), a filha do casal, é incumbida de levar pães ao padre da Igreja e velas para Virgem Maria. A mãe questiona se uma das serviçais não pode fazê-lo, mas o pai assume que somente uma virgem poderia levar velas à Virgem, Mãe do Cristo. Karin acompanhada de Ingeri então montam em seus cavalos e viajam à Igreja, que é longe da casa onde moram.

Para chegar à Igreja, têm de atravessar a floresta, e é lá que encontram um homem que reconhece a bárbara Ingeri, e confessa que escuta coisas que "a humanidade sussurra em segredo e vê o que ninguém pode ver". O homem ainda sacrifica ao deus Odin, faz com que Ingeri ouça a alma de três homens que correm ao norte, como se estivessem sendo arrastados pelas Valkírias. É na floresta que vemos frequentemente corvos que gritam (lembrando que Odin tinha dois corvos que sempre lhe acompanhavam e que simbolizavam a Memória e o Pensamento).

Cristo Crucificado, importante símbolo da espiritualidade medieval. 
Ingeri, em segredo, invoca o auxílio do deus Odin.
Karin e seu pai, símbolo da autoridade paternalista.
Karin, exemplo da virtuosidade cristã.
Já Ingeri é exemplo da barbárie pagã. 
Karin na floresta.  
A árvore que não deixa de representar a Iggdrasil, que liga o mundo humano ao mundo de Deus (ou dos deuses).  

Enquanto que Ingeri é a bárbara pagã, também por estar grávida, relembra a antiga relação do paganismo com os ritos de fertilidade. Karin é o arquétipo da pureza cristã, e por ser virgem, mais por vontade de sua mãe que por seu desejo natural, mas ainda assim, é devota da Virgem. A mãe em certo momento se martiriza com gotas de velas nas mãos e isso representaria a questão do pecado original como inerente à mulher. Em outro momento, uma das servas da casa, falando sozinha confessa que é "a vida miserável que Deus permite que todos nós vivamos". O pai da família Töre é como um cristão convertido, que ainda que faça suas orações a Jesus antes de comer o pão e beber o vinho, em um momento necessário, antes de cometer certa vingança, se banha com as folhas de uma alta árvore que não seria impossível relacionarmos com a Yggdrasil, como num banho ritualístico e purificador para uma batalha que, sem dúvida, no passado, o deus guerreiro Odin abençoaria.

O filme trata da miséria do mundo físico medieval comparada à uma riqueza imensurável do mundo do imaginário e das representações simbólicas. É um filme de contrastes, de oposições e de convivências. Não falarei mais para não contar a história em si. Mas após assistir o filme, não deixe de ler esse artigo, escrito pelo prof. Dr. Edilson Baltazar Barreira Júnior da UFC que faz uma análise histórica, simbólica e sociológica da obra. Imperdível.

Para assistir: Parte 1 e Parte 2 pelo 4shared. Ou assista online aqui pelo Youtube. 
Sobre o filme: Preto e branco, áudio em sueco, legendas em português.
Palavras-chave: Paganismo, Cristianismo, bruxaria, purificação, assassinato, drama, Idade Média.

O MANUSCRITO DE SARAGOÇA (Wojciech Has, 1965)

"Rekopis znaleziony w Saragossie", como no original, é uma obra longa, densa e sem uma linha cronológica bem definida – o que não faz com que deixe de ser um bom filme. Polonês, Wojciech Has baseou-se no livro homônimo de Jan Potocki também conterrâneo de 1805, trazendo uma miscelânia de histórias que movem-se entre si, ambientadas na Espanha medieval de católicos, judeus e muçulmanos, retratando de forma intrigante uma mentalidade plural e sincrética. 

Mantendo o caráter épico e surreal da obra literária, o filme de Has começa no meio de uma guerra talvez napoleônica. Sendo o livro descoberto por um francês, logo em seguida também chama a atenção de um espanhol, onde deixam de guerrear e começam a ler o livro, que contaria a história do ancestral do espanhol Afonso van Worden. Fantasmas de ciganos que oscilam entre o mundo dos vivos e dos mortos, não nos dão uma conclusão clara de sua existência.

Duas gêmeas mouras demoníacas que, fazendo jus à mentalidade católica que demoniza a cultura que não é cristã – insistentemente oferecem seus prazeres e uma bebida na forma de um crânio ao “herói” Afonso, desde que renegue sua fé cristã. Para encontrá-las, desce as escadas sempre de uma mesma cabana, o que pode ser uma metáfora para o submundo, pois depois disso, não será com demora que Afonso acorda novamente no deserto. Depois disso encontrará um Padre que lhe fala sobre o perdão e um Louco que havia sido possuído pelo demônio anteriormente, caminho pelo qual Afonso estava trilhando sem perceber. Mais tarde encontrará um sábio cabalista que também lhe contará coisas acerca do Universo, das quais não está interessado, bem como também um cigano que lhe contará ainda mais histórias sobre sua vida, todas experiências intercaladas e espiraladas que, essas sim, chamam sua atenção. Há quem diga que, devido a bagagem esotérica do autor do livro, muitos personagens do tarot são retratados na história (O Louco, o Mago, A Sacerdotisa, o Hierofante, os Enamorados, a Morte etc) e, como consequência, também são presentes no filme.
A obra de Has, tratando a todo instante do fantástico e surreal traz consigo uma experiência onírica muito evidente, que após a conclusão das mais de três horas do filme, não responde àquilo que é real ou pertencente ao mundo dos sonhos e da ilusão. Ou, até, se tudo fora uma só coisa. Um filme pra ser visto com disposição e atenção.  

Para assistir: Parte 1, Parte 2, Parte 3, Parte 4, Parte 5, Parte 6, Parte 7, Parte 8, Parte 9, Parte 10, Parte 11, Parte 12, pelo Media Fire.  
Sobre o filme: Preto e branco, áudio em polonês, legendas em português. 
Palavras-chave: Ocultismo, Islamismo, Pacto com o Diabo, Romance, Sonho, Idade Média.


O BEBÊ DE ROSEMARY (Roman Polanski, 1968)

Este é um dos clássicos do terror e é provável que muitos aqui já conheçam este filme. O Bebê de Rosemary trata de uma série de questões, sendo essencialmente um filme de mistério antes de mais nada. Toda a história gira ao redor da neurose de Rosemary como se houvesse uma teoria da conspiração ao redor de si e do seu filho. É só no final que descobrimos o que realmente aconteceu. 

A história começa com Rosemary (Mia Farrow) e seu marido Guy (John Cassavetes) se mudando para um apartamento em Nova York. Lá encontram um curioso casal de vizinhos que, a cada dia que passa, intrometem-se cada vez mais na vida do casal. Guy, a princípio a contra-gosto, acaba por se afeiçoar dos vizinhos e começa a agir estranhamente com a esposa. Após muito tempo desempregado, Guy misteriosamente consegue um trabalho e as coisas começam a melhorar para a vida de ambos, mas não tanto para Rosemary que então engravida, o que deixa a esposa e o marido muito felizes. 

O restante da trama não vou contar, pois acabaria com o mistério do filme. Ao meu ver, um dos melhores atrativos da história e a neurose e o clima de "teoria da conspiração" que gira ao redor de Rosemary. Somos levados a crer que a mulher está certa e que todos à sua volta conspiram para que não descubra o que realmente está acontecendo. A sensação de ser aprisionada, de estar sendo enganada e de ser acusada de louca quando, na verdade, louco são os outros (ao menos aos olhos do expectador) é algo que angustia e prende a atenção de quem está acompanhando a história. 

O Bebê de Rosemary levanta questões interessantes no que toca às bruxas popularmente conhecidas na  década de 60 com uma pitada de folclore remanescente: elas se organizam em grupos geralmente de 13, celebram seus rituais secretos com danças e música, muitas vezes nuas, mas ao mesmo tempo que sacrificam e invocam ao Diabo. A questão da figura da mulher em plena era da contracultura e da libertação sexual também é evidente na história com a quase que total submissão de Rosemary ao seu marido. 


Os vizinhos do casal Guy e Rosemary  são personagens-chave para a história.
Aqui, Rosemary acorda arranhada depois de um "sonho".
Guy e Rosemary.
Minnie Castevet, interpretando a vizinha Ruth também foi indicada a prêmios por melhor atriz coadjuvante.
Rosemary no momento culminante do filme. 

Mia Farrow recebeu prêmios e indicações de melhor atriz, bem como Roman Polanski a indicação de melhor diretor e melhor roteiro adaptado. Baseado no romance homônimo de Ira Levin, o filme é tido como um dos melhores do gênero na história do cinema e eu particularmente não discordo disso. 

Sobre o filme: Colorido, áudio em inglês e legendas em português. 
Palavras-chave: Bruxaria, Feitiçaria, Neurose, Medo, Mistério, Pacto com o Diabo, Contemporaneidade.

MEDÉIA (Pasolini, 1969)

Medéia é o tipo de filme que poucos hoje conseguem apreciar. Por ser relativamente antigo e esteticamente diferente, é inspirado na obra clássica de Eurípedes. A Medéia de Pasolini é fiel ao arquétipo da feiticeira que oscila entre o humano e o divino, o maldito e o sagrado, o perdoável e o injustificável.

O filme já em seu início traz um centauro, preceptor de Jasão que conversa sobre os princípios da natureza, do mito e do racional. "Tudo é santo, a natureza é santa" confessa, pra assumir logo depois que "não existe nenhum deus". Jasão cresce, parte à Corinto a fim de reinvidicar um lugar que é seu por direito. O rei atribui-lhe o trabalho de resgatar o velocino dourado que atualmente se encontra na Cólquida, terra natal da sacerdotisa Medéia. Jasão em companhia dos argonautas parte então ao seu destino, e lá encontra Medéia que, apaixonando-se, rouba o animal que era sagrado à sua pátria, mata o irmão e volta na companhia de Jasão à Corinto, tendo então três filhos com o homem ao longo do anos que residirá longe de sua terra natal. Jasão trai a sacerdotisa, optando por casar-se com a filha do rei. O filme tratará, então, do sentimento de vingança de Medéia frente ao desrespeito cometido pelo marido.

A preocupação estética do filme é evidente ao longo da obra. Pasolini contrasta o mundo "bárbaro" de Medéia com poucos diálogos, um sacrifício humano (pois nas palavras de Medéia, o renascimento vem da Morte), vestuários escuros, uma terra árida com símbolo da Cólquida. Ao abandonar seu mundo e ser recepcionada em Corinto, abdica de suas vestes antigas, sendo então adornada com véus mais claros e finos, entrando então para o mundo "civilizado" dos gregos. Porém, como assume mais tarde, perde sua identidade pois esqueceu-se das suas artes, sequer consegue ainda ouvir a terra ou o sol logo que foje com Jasão - particularmente gosto muito dessa cena. O retorno à sua identidade se dá quando, revoltada pela vingança e o abandono cometido pelo marido (princípio de alké, coragem), veste os antigos trajes e ouve mais uma vez seu avô, o sol.

Medéia é uma feiticeira, e como tal é bárbara, é marginal, e por isso teria de ser exilada. A história através de Eurípedes ou de Pasolini tratará dessa natureza obscura e maldita, que constituindo uma ordem (kósmos) que foi quebrada, só será reorganizada pelo sacrifício.

Sobre o filme: Áudio em italiano, legendas em português. 
Palavras-chave: Magia, Sacerdócio, Romance, Drama, Antiguidade.

O HOMEM DE PALHA (Robin Hardy, 1973)

The Wicker Man, como é conhecido no original, é um filme muito interessante que trata de uma série de questões que misturam o movimento ideológico do neopaganismo com as sociedades alternativas e o movimento new-age nos anos 60 e 70. 

No início da história o Sargento Howie (Edward Woodward) recebe uma carta tratando do suposto desaparecimento de uma garota na remota ilha de Summerisle. Howie é um cristão convicto que prega pela família e pelos bons costumes. Viaja de avião e aterrisa na ilha, procurando pela garota e mostrando uma foto da menina, mas encontrando dificuldades para encontrá-la e suspeita que todos na ilha, como que por uma conspiração, estão escondendo algo dele. A história se passa nessa procura, com um ritmo crescente de ansiedade e que prende o observador do começo ao fim. 

Sargento Howie, como o cristão que é, entra em conflito com suas crenças ao longo da trama com o que encontra na ilha. Liderados pelo Lord Summerisle (Christoper Lee), praticam uma série de rituais pagãos e fundamentam sua pequena sociedade em cima dessas crenças. Algumas cenas do filme são clássicas e muito conhecidas, como a da professora Miss Rose (Daiane Cilento) que explica às crianças sobre o significado fálico do Mastro de Maio, ou o momento em que Summerisle fala que "acha que poderia voltar a viver com os animais" enquanto Howie, em orações, tenta manter-se controlado enquanto ouve os gemidos da mulher que, sozinha, está no quarto ao lado provocando-o. Outro dos momentos marcantes do filme é quando Summerisle, na posição de sumo-sacerdote da sociedade, questiona os valores conservadores de Howie. "Somos pessoas profundamente religiosas", confessa o sacerdote. Howie questiona sobre as igrejas em ruínas, sobre a falta de padres ou pastores e crianças dançando nuas. "Eles amam sua lição de divindade" responde Summerisle para completar mais tarde, e quando acusado de pagão, responde: "Um pagão é concebível, mas não, espero, um homem ignorante."

O filme é fascinante e indispensável para o amante do assunto.


Procissão dos mascarados.

Nos rituais pagãos, o participantes utilizam máscaras de animais que evocariam a fertilidade.

Mastro de Maio, ou Mastro de Beltane.

Ritual de fertilidade.

Sobre o filme: Colorido, áudio em inglês, legendas em português. 
Palavras-chave: Paganismo, Musical, Mistério, Contemporaneidade

A FLAUTA MÁGICA (Bergman, 1975)


Há quem não goste de óperas adaptadas, e particularmente confesso que também tenho algumas reticências com isso. Porém, para os admiradores desse tipo de arte que não tiveram a oportunidade de assistir o espetáculo presencialmente, tal como eu, é uma boa saída. O original Trollflöjten, em alemão, é uma adaptação da ópera Die Zauberflöte, de Mozart.

A obra começa com o príncipe Tamino, que com a ajuda de três Damas da Rainha da Noite, vence um dragão e acaba adormecendo devido ao cansaço. Mais tarde, a Rainha da Noite apresenta-se a Tamino e mostra um retrato da sua filha, Pamina, na qual o príncipe se apaixona e então a dama promete-lhe a mão da filha em casamento caso consiga resgatá-la das mãos de um tirano que a raptou. Tamino com a ajuda do engraçado Papageno, caçador de pássaros, começa uma jornada em busca de Pamina. Para ajudar-lhes na jornada, Tamino recebe uma flauta mágica que tem o poder de fazer mudar o estado de espírito daqueles que ouvem a canção. Já Papageno, também ganha um garrilhão, uma espécie de conjunto de sinos também com poderes mágicos.

A Flauta Mágica de Mozart antes de mais nada é uma obra carregada de um forte simbolismo místico e uma profunda marca contextualizada historicamente. Tanto Mozart quanto Emanuel Schikaneder – responsável pelo libreto alemão – foram conhecidamente maçons, e não é a toa que a peça carrega consigo profundas marcas dessa simbologia esotérica. De modo geral, A Flauta Mágica trata declaradamente de um processo iniciático, onde desafios são impostos em forma de testes ou graus, e tanto Tamino quanto Pamina têm de passar por algumas delas. Uma vez que Tamino obtém sucesso nessa jornada, representa o homem iluminado, sagrado, que traz consigo o poder da divindade. Já Papageno, sem sucesso, é o homem comum, relacionado a ambições e prazeres carnais e mundanos.

Além disso, tanto a adaptação de Bergman quanto o trabalho de Mozart tratam da transição do mundo medieval para século “das luzes”. A Rainha da Noite, simbolizada pela noite, pela superstição e pela tirania representa esse passado que deve ser abdicado (atentem para a Lua que está frequentemente consigo e os signos zodiacais que organizam-se ao fundo). Já Sarastro, o raptor de Pamina, acaba por simbolizar o progresso, o reinado fundamentado na razão, na liberdade, igualdade e fraternidade. As provações em que Tamino tem de passar para encontrar Pamina não deixa de ser as provações que o homem comum deve passar para tornar-se um Iniciado, Iluminado e não mais um mundano, medieval.

Sobre o filme: Colorido, áudio em alemão, legendas em português.
Palavras-chave: Ópera, Iluminismo, Iniciação, Maçonaria, Idade Média, Idade Moderna.

AS BRUXAS DE EASTWICK (George Miller, 1987)


Como a comédia que é, com exceção da trilha sonora (indicado ao Oscar por isso) e de alguns diálogos brilhantes, esse filme de Miller não é dotado de uma história fascinante e tem um final até um tanto quanto decepcionante, ainda que tenha um enredo de muito renome. Trouxe ele para a lista do blog por tratar do tema da feitiçaria e por causa de alguns diálogos, esses sim, muito pertinentes, sobre a arte, sobre as mulheres e sobre a natureza humana. 

Alexandra (Cher), Jane (Susan Sarandon) e Sukie (Michelle Pfeiffer) são três solteironas mal-resolvidas emocionalmente que se reúnem toda as quintas-feiras para comer, beber e se divertirem juntas. Alex é uma escultora que trabalha com miniaturas de Vênus de Willendorf. Jane é uma violinista regrada e comedida. Sukie é dona de casa, mãe de 6 crianças. Aqui, as artes e a fertilidade são atributos claramente compartilhado pelas mulheres, que como musas ou feiticeiras, descobrem-se como tal logo no começo do filme. Em um tradicional discurso anual do diretor da escola onde Jane trabalha, interminável e cansativo, ambas não aguentam mais e pedem para que tudo termine rápido. Magicamente, então, começa um temporal. Durante a noite as três se reúnem, e testando seus poderes, pedem por um homem de acordo com os seus desejo: rico, não necessariamente bonito, mas que seja atraente entre outras características. 

Daryl é uma espécie de sedutor diabólico no filme. 
A relação amorosa das bruxas com Daryl causa espanto na cidade.
Alex, Jane, Sukie e Daryl. 
As bruxas praticando feitiçaria com boneco feito de cera de vela.
Libertadas pelos seus próprios poderes criativos, elas voam sobre a piscina.
Até que surge então Daryl van Horne (Jack Nicholson) que compra uma mansão local. Daryl é como um demônio, que na posição de um fascinante praticante de feitiçaria, dá tudo o que as bruxas pedem, mas que em troca exige exclusividade como uma espécie de pacto. É onde começa o romance das três mulheres com Daryl, o que choca a pequena e mesquinha comunidade local. Como disse no começo, o que chama a atenção no filme são os diálogos, principalmente os de Daryl. Em certo momento, confessa: “Eu vejo homens por aí, metendo seus paus em tudo e tentando fazer algo acontecer. Mas as mulheres são a fonte, o único poder. Natureza, nascimento, renascimento. Clichê, clichê. Claro, mas é a verdade.” E mais tarde, ao falar sobre a Inquisição no séc. XIV, também comenta: “É só outro exemplo da sociedade dominada pelos homens na exploração das mulheres em benefício próprio. Os homens são uns escrotos, não é? (...) Eles têm medo, ficam de pau mole diante de mulheres de poder e o que fazem? Chamam de bruxas, queimam e torturam...”. 

Mais do que sobre feitiçaria, As Bruxas de Eastwick é um filme sobre o poder da mulher. Daryl abre a mente das mulheres, que se soltam, passam a criar e usufruir da vida como verdadeiras sacerdotisas de si próprias. Ainda assim, vários elementos feiticeiros aparecem no filme: invocações com desenho no sal, feitiço com cerejas, boneco de velas etc. 

Como disse, é um filme agradável, ainda que não seja brilhante. 

Para assistir: Parte Única pelo Uploaded. 
Sobre o filme: Colorido, áudio em inglês, legendas em português.

Palavras-chave: RomanceMagiaFeitiçariaPactoContemporaneidade

A ÚLTIMA TEMPESTADE ou OS LIVROS DE PRÓSPERO (Peter Greenaway, 1991)

Capa do filme.
Peter Greenaway conseguiu me impressionar com esse filme. E aqui uso a palavra “filme” na falta de uma palavra melhor, pois ele pode ser chamado de várias coisas. Mais do que um filme, a obra também é uma peça de teatro, pode soar até como uma ópera apresentada: a beleza da música, da dança e de um impecável trabalho técnico na montagem dos cenários, do figurino, da maquiagem e da fotografia me faz querer acreditar que Greenaway conseguiu reunir nessa história, super conceitual, com perfeição, todas as sete artes.

Baseia-se na obra “Tempestade”, de Shakespeare (já aqui no blog nesse link). Conta a história de Próspero, duque legítimo de Milão que foi deposto pelo irmão usurpador Antônio com a ajuda de Alonso, rei de Nápoles. Próspero é exilado em uma ilha deserta, junto de sua filha, Miranda. Antes de sofrer o exílio, seu amigo e fiel companheiro, Gonçalo, deixou consigo vinte e quatro dos seus livros de magia. E será justamente com o auxílio dessas obras que Próspero arquitetará sua vingança – momento, no qual, a peça decorre.

Por isso o filme se chama “Prospero’s Books”, ou “Os Livros de Próspero”, estranhamente traduzido para o português como “A Última Tempestade”. O filme é dividido em “capítulos”, e cada “capítulo” decorre em função de um livro.

O sentido da história é que Próspero, como um Mago que é, arquiteta e controla o seu destino. O Mago escreve nos seus livros, e depois lê em voz alta: as falas de Próspero muitas vezes são exatamente repetidas e copiadas pelos outros personagens do enredo. As diferentes vozes se entrecruzam, e os homens profanos – esses que não conhecem o Oculto –, como marionetes, são manipuladas pelo Mago que percorre sua própria Jornada espiritual.

Próspero pratica sua magia com a ajuda do espírito Ariel, seu fiel companheiro que lidera os demais espíritos elementais. Em praticamente todas as cenas os personagens estão cercados por uma multidão de espíritos que, como uma extensão da própria natureza, dão vida a tudo o que acontece. Os silfos dançam quando há ventania, as sereias nadam e se entrelaçam nas águas turbulentas, espíritos da terra correm por entre as plantações e também dançam, como em procissão, em quase todos os momentos da história.

O observador atento conseguirá fazer uma reflexão interessante sobre o papel do exercício da Magia em nossas vidas: atuamos como senhores do nosso Destino? Ou como vítimas dele? Manipulamos ou somos manipulados? Comandamos ou somos comandados pela Natureza ao nosso redor?

Bom proveito!

Próspero em sua biblioteca.
MirandaFerdinando e os espíritos.
PrósperoAriel e a demais turba de silfos e ninfas. 
O casamento de Ferdinando Miranda. Detalhe na fotografia. 
Ceres, cantando no casamento de Ferdinando Miranda, onde Íris Juno também aparecem, junto a uma multidão de demais espíritos. Particularmente acho essas cenas as mais bonitas do filme. 
Espírito das águas dançando no oceano.
Para assistir: Parte Única, pelo Depositfiles para baixar o arquivo em torrent.  
Sobre o filme: Colorido, áudio em inglês e legendas em português. 
Palavras-chave: Mitologia, Paganismo, Magia, Feitiçaria, Modernidade, Época vitoriana

AS BRUXAS DE SALÉM (Nicholas Hytner, 1996)

The Crucible, como é conhecido originalmente, é um filme que trata da histeria social provocada pelo episódio no ano de 1692 em Salém, Massachussets. 

Em uma manhã do mesmo ano, jovens se reúnem na floresta com a escrava de origem africana Tituba (Charlayne Woodard). A escrava orienta um ritual onde as meninas devem dizer em voz alta o nome dos homens dos quais desejam se casar. Até que Abigail (Winona Ryder), uma das meninas que participavam do rito, mata uma galinha e se banha com o sangue derramado. Concretizando com perfeição a típica cena do sabá medieval ou moderno, algumas das mulheres se despem a dançam nuas ao redor do fogo. Até que surge o pastor Parris (Bruce Davison), tio de Abigail. As mulheres fogem, ainda que uma delas, a filha do pastor, cai desfalecida ao chão, e assim continua por vários dias, gerando comentários crescentes pela vila. 

A história gira em torno desse episódio e das acusações que se seguem. Uma das maneiras de se livrarem das acusações, era acusando outras pessoas. É assim que as de bruxas, de vítimas, e ainda que temidas, tornam-se santas e desencadeiam uma série de acusações com o objetivo de “limpar” Salém com o auxílio do reverendo Hale (Rob Campbell) que vem de fora da cidade. Inicialmente os marginalizados são acusado, como velhos bêbados ou mulheres isoladas. Depois disso, outras pessoas que não tinham necessariamente relações com as práticas feiticeiras. 

Alguns detalhes merecem destaque, como a cena inicial do sabá, as freqüentes alusões ao vôo noturno, feitiçaria com bonecos retratam um interessante quadro das crenças bruxas desses séculos passados. Mas, ainda assim, o que é destacado no filme é a histeria social e uma mentalidade de perseguição e de dualidade bem X mal que permanece a todo o tempo. 

Arthur Miller foi quem escreveu a peça original de teatro em 1953¹, mas que também adaptou o roteiro para o filme. Indicado ao Oscar por esse trabalho. 

Para assistir: Parte Única, pelo Filesonic.
Sobre o filme: Áudio em inglês, legenda em português.
Palavras-chave: Cristianismo, Perseguição, Inquisição, Feitiçaria, Sabá, Bruxaria, Romance.
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¹  Que, em um âmbito de perseguições, tratava da política norteamericana contra o comunismo como uma espécie de crítica. Desde então “caça às bruxas” tornou-se sinônimo também de perseguição política ou de minorias vitimizadas.

DA MAGIA À SEDUÇÃO (Griffin Dunne, 1998)

Da Magia à Sedução (Practical Magic) é um romance baseado no livro de Alice Hoffman que tem como plano de fundo a história da família Owens e suas descendentes misturando drama, comédia e romance. 

As tias Frances (Stockard Channing) e Jet (Dianne Wiest), são as protetoras encarregadas de transmitir seus conhecimentos mágicos à geração seguinte. Gillian (Nicole Kidman) e Sally (Sandra Bullock) são duas irmãs que compartilham o dom da feitiçaria, crescem e tomam caminhos diferentes. Sally quer viver uma vida normal, recusa seu dom, casa-se, tem duas filhas e segue uma vida aparentemente feliz. Já Gillan foge de casa, tem vários amigos e um namorado viciado em sexo. Ambas seguem suas vidas da melhor forma possível e estão felizes com aquilo que têm. Até a maldição da família fazer-se lembrada: Toda mulher Owens que se apaixonar verdadeiramente, perderá o homem que ama. 

Da Magia à Sedução trata de aspectos interessantes das práticas mágicas: um conjunto de conhecimentos que são passados de uma geração à outra, ainda que haja negações e interrupções, e até um ofício marginal e malvisto pela sociedade comum, mas que quando a necessidade se faz presente serve como auxílio àqueles que o procuram. Ao longo da história, vários elementos saltarão aos olhos do observador atento. Particularmente adoro a cena em que tias e as sobrinhas reúnem-se de noite para beber, jogar cartas, falarem mal de si próprias e dançar claramente lembrando uma cena sabática misturando ao mesmo tempo sagrado e profano: a bruxaria como um legado de dom e maldição. 
Misturando vários gêneros em só enredo, é um filme leve e divertido que com certeza agradará aqueles que observarem com atenção e sem dúvida será visto com prazer mais de uma vez ao longo da vida. 
"(...) De algumas coisas eu tenho certeza. Sempre jogue um pouco de sal no seu ombro esquerdo, plante alecrim no seu jardim, alfazema no portão para dar sorte e, sempre que puder, também se apaixone..."
Para assistir: Parte 1 e Parte 2 pelo Rapidshare.
Sobre o filme: Áudio em inglês, legendas em português.
Palavras-chave: Bruxaria, Feitiçaria, Romance, Maldição, Contemporaneidade.

O VIOLINO VERMELHO (François Girard, 1998)


The Red Violin sem dúvida é um filme fascinante. Ainda que seja longo, segue uma história que prende o observador do começo ao fim, não deixando que o filme se torne cansativo, recorrendo então a uma não-linearidade das cenas que explica, gradualmente, o desenrolar coerente da história.

A história do Violino Vermelho começa na Itália do séc. XVIII com Nicolo Bussiti que decide construir um instrumento especial para homenagear o nascimento do seu filho, ainda que sua esposa enfrente uma gravidez de risco. A mulher recorre então a uma cartomante que informa não poder tirar as cartas para uma criança que ainda não nasceu, mas pode o fazer para a mãe. Retirará, então, 5 cartas: A Lua, o Enforcado, a Justiça, o Diabo e a Morte prevendo com exatidão fatos que, ainda que sequer a cartomante ou a consulente saibam, se seguirão aos próximos 300 anos, saindo da Montreal renascentista na Itália para um mosteiro na Áustria, pela Inglaterra do séc. XIX, da China na Revolução Cultural do séc. XX, chegando finalmente ao Canadá no séc. XXI onde o violino está sendo leiloado por uma série de pessoas que estão, direta ou indiretamente, ligados misteriosamente à história do violino.

Com final surpreendente, o Violino Vermelho antes de ser drama, romance ou suspense é um filme de arte, cuja música como plano de fundo faz com que se supere frente aos demais, atingindo com sucesso sua proposta.

Sobre o filme: Áudio em inglês, italiano, francês, alemão e chinês. Legendas em inglês e português.
Palavras-chave: Tarot, Música, Arte, Renascimento, Idade Moderna, Contemporaneidade.

JOVENS BRUXAS (Andrew Fleming, 1998). 



"The Craft" de Andrew Fleming é um filme perigoso, bem como falar sobre ele também é. Perigoso essencialmente, por dois motivos: Primeiro, pois é um filme americano para adolescentes, com bons efeitos especiais para a época, com uma trilha sonora sedutora que mistura ação e romance, e toda essa sedução pode levar ao fascínio, que por si só, pode levar ao exagero. Exagero de alguns que acreditam que tudo aquilo pode ser verdade na vida cotidiana, e então explodem as vendas de livros sobre ocultismo e bruxaria e os sites na internet ganham cada vez mais acessos. E assim foi feito na época em que o filme foi lançado. Quando não o exagero, então, vem a total repulsa: O filme é fantasioso, é para adolescentes, é ruim, "não é coerente com a realidade" - e esse último comentário é o que eu acho o mais engraçado de todos! O que eu recomendo aqui, então, é o bom senso com uma pitada de honestidade. Seguindo, então, a dica do leitor Bruno Diniz: 

O filme conta como a bruxa Sarah (Robin Tunney) chega em sua nova cidade, em Los Angeles e encontra um grupo de outras três garotas que também estudam e praticam a bruxaria. Até a chegada de Sarah, as problemáticas Nancy (Fairuza Balk), Bonnie (Neve Campbell) e Rochelle (Rachel True) aguardam "a quarta" participante do círculo, para que a partir de então possam efetuar seus rituais corretamente. Assim é feito, elas formam um pequeno Coven, trabalham e aprendem com isso executando vários rituais ao longo do filme, se alegrando com os bons resultados e outras vezes esquecendo das consequências nem sempre tão boas dos seus pedidos. Basicamente essa é a trama do filme. 


Vários rituais e até idéias sobre a magia que aparecem no longa valem a pena ser discutidos. Gosto muito, por exemplo, da metáfora que Lirio (Assumpta Serna), a dona de uma loja que vende livros, velas e utensílios esotéricos - um espaço muito aconchegante, diga-se de passagem! - usa ao ser questionada sobre como encerrar um feitiço: "Isso não é possível. Você consegue encerrar uma compota depois de aberta?". Essa mesma vendedora alerta para suas clientes desde o significado das cores das velas até a noção wiccana de que todo o tipo de feitiço tende a retornar, para o seu executor, três vezes mais forte. É Lirio que lembra o fato de não existir magia branca ou negra, sendo tudo uma coisa só pois a Natureza não tem cor. 

As jovens bruxas invocam ao longo dos seus rituais uma divindade chamada "Manon" - algumas pessoas defendem que esse nome é um título inventado especificamente para o filme, para evitar que fossem chamadas forças indesejadas de verdade caso usassem o nome de uma divindade real. É o que dizem, não acho impossível que seja verdade. Elas defendem que Manon não é Deus ou o Diabo, mas toda a Natureza em si. Alguns dos ritos são executados com as invocações das Torres de Vigia, sendo essas torres respectivamente os quatro elementos da natureza, finalizando com o pedido de bênçãos de uma Mãe. Utilizam-se de um Athame para o traçado do círculo e mencionam o "perfeito amor e perfeita confiança" entre si, beijando-se em certo momento, antes de seguirem adiante. 

Alguma semelhança com o que leu? Pois é, sem sombra de dúvidas, o filme foi claramente inspirado na religião Wicca para a construção dos rituais que aparecem ao longo da história. É evidente que como o cinema não tem a obrigação da fidelidade com o que é "real" - por isso acho engraçado quando as pessoas criticam um filme porque ele não é "fiel à realidade", uma vez que essa "fidelidade" não deve ser regra - existem muitas coisas fantasiosas que merecem mais críticas do que deveriam: levitações, o famoso glamoury (que sem dificuldades você encontra receitas de como fazer no google), a dualidade de bruxas "do bem" versus bruxas "do mal" e outras coisas do gênero.

Bonnie persuadindo Sarah para roubar um livro.
Sarah na misteriosa loja de Lirio.
Bonnie Rochelle na cerimônia de entrada do Círculo.
Ritual de levitação. 
Invocação na praia.
Voar também. Por que não? 
Enfim, como disse, suas fantasias não devem receber julgamentos negativos por nós, praticantes. É um filme que sim, deve ser visto, por colocar no cinema coisas do nosso cotidiano como crenças, alguns rituais e alguma coisa de mentalidade para, a partir depois que começarem os créditos no final do filme, fazermos nossa própria leitura do que foi mostrado. Costumo ver esse filme como um exemplo da popularidade da Wicca: que traz coisas boas e outras nem tanto, afirmações fantasiosas, genéricas e até mesmo pessoas que, no futuro, possam ser ótimos bruxas e bruxas sem acreditar que possam mudar a cor do cabelo ao passar de uma mão, por exemplo.

Para assistir: Parte Única pelo Uploaded, Parte Única pelo RapidShare, Parte Única pelo iFile ou Parte Única pelo BayFiles. 
Sobre o filme: Áudio em inglês, legendas em português. 
Palavras-chave: WiccaBruxariaOcultismoMagia, Contemporaneidade


CHOCOLATE (Lasse Hallström, 2000)

Um filme delicado, suave e de excelente bom gosto estético. Conta a história de Vianne Rocher (Juliette Binoche) e de sua pequena filha Anouk (Victorie Thivisol) que mudam-se para uma pequena cidade no interior da França e conseguem fazer com que, aos poucos, a vida das pessoas que viviam na pequena comunidade se transformem por completo. 

O estranhamento da mãe solteira e da jovem menina que chegam à cidade sozinhas é automático, e o fato de alugarem uma antiga peça para abrir uma chocolateria (chocolatier) em pleno feriado cristão de Pentecostes causa maior espanto ainda, principalmente no que toca ao nobre conservador e pregador de uma boa moral tradicional e de bons costumes Conde Paul de Reynauld (Alfred Molina). Quanto Vianne é questionada sobre o fato, responde ao Conde que não costuma frequentar a Igreja. Espantado, o Conde então decide então influenciar os moradores da pequena aldeia para que não frequentem a loja. 

Porém, Vianne inaugura a chocolateria e apesar das proibições do Conde de Reynauld as pessoas passam a frequentá-la. Quando chegam os clientes, a dona da loja gira uma pequena mandala circular de motivos indígenas da América Central (provavelmente Maia ou Asteca) e, ao girar a mandala sobre a mesa, Vianne e a filha Anouk incentivam o cliente a falar o que lhe vêm a mente. Interpretando uma espécie de transe daquele que observa a mandala, a senhora dos chocolates indica o tipo adequado àquela pessoa, fazendo com que, aos poucos, as pessoas deixem de lado seus medos e se atrevam à conhecer a liberdade. Porém, as coisas pioram quando, sob os olhos da cidade conservadora, aparece um bando de mercadores tidos como vagabundos, dentre os quais se encontra Roux (Johnny Depp). 

Vianne e os "mamilos de Vênus".
Vianne e sua filha Annouk.
A senhora dos chocolates e uma de suas clientes.
O moralista Conde de Reynauld com Cristo crucificado ao fundo.
Vianne não deixa de seguir o arquétipo sacerdotisa e feiticeira que modifica a vida daqueles que o cercam. E como uma bruxa amaldiçoada e mau vista pelos olhos dos homens comuns, é uma marginal, isolada e peregrina, que de cidade em cidade, busca cumprir sua missão. Ao longo da história a ligação da personagem principal com as culturas pré-colombianas são explicadas de forma muito interessante aos olhos do observador atento. Pra quem gostou do filme The Mistress of Spices (O Sabor da Magia, 2005), esse filme não vai deixar de ser, no mínimo, admirado. 

Para assistir: Parte Única pelo Fileserve, Parte Única pelo Filesonic ou Parte Única pelo Bitshare.
Sobre o filme: Colorido, áudio em inglês, legendas em português. 
Palavras-chave: Romance, Chocolate, França, Feitiçaria, Maias, Incas, Astecas, Idade Moderna

O SABOR DA MAGIA (Paul Mayeda Berges, 2005)

Em inglês, “The Mistress of Spices” significa algo como Senhora das Especiarias. Antes de mais nada, O Sabor da Magia como ficou conhecido no Brasil, é um filme sobre tradições frente a um mundo moderno. Tilo (Aishwarya Rai) é uma linda mulher que vem da Índia e traz em sua bagagem o que aprendeu no seu passado. Ainda na Índia, depois de ter os pais assassinados tragicamente, chegara ainda criança a uma velha senhora que ensinava a ela e a suas dedicadas sobre os segredos das especiarias. 

Passaram-se os anos e as meninas que tornaram-se mulheres foram iniciadas. Indo embora da Índia, cada uma foi a um lugar diferente. Tilo foi para os Estados Unidos e lá monta uma loja de especiarias em uma pequena comunidade oriental, atendendo clientes árabes, muçulmanos, indianos e ocidentais. Seu trabalho é ajudar seus cliente de acordo com os conhecimentos mágicos que aprendera ao longo dos anos de estudos tradicionais na Índia.

Tilo não pode tocar na pele de outra pessoa, bem como jamais poderia abandonar a loja. Ainda assim, conhece Doug (Dylan McDermott) um americano e se apaixona por ele, apesar das especiarias falaram-lhe que não era o correto.

O romance não traz novidades, bem como o roteiro não tem pretensões. Ainda assim, O Sabor da Magia é um filme de beleza única. Pra quem gosta de cozinhar e vê nessa matéria uma das mais interessantes práticas feiticeiras, sem dúvida assistirá o filme mais de uma vez. Como eu. Poderia finalizar dizendo que antes de mais nada é um filme inspirador. Os cenários, o figurino, a música e a fotografia falarão por si só. 


Inpirado no romance de Chitra Diwakaruni, igualmente fascinante. Para os fãs do filme, como eu, recomendo a leitura do romance para contrapor e aprofundar alguns dos elementos da história. Também impossível não lembrar de Chocolat (Chocolate, 2005) pelo estilo muito semelhante da história. 

Sobre o filme: Áudio em inglês, legendas em português. 
Palavras-chave: Tradições indianas, Culinária, Especiarias, Feitiçaria, Magia, Contemporaneidade.

A FONTE DA VIDA (Darren Aronofsky, 2006)


“The Fountain” é o original em inglês, e em Portugal ficou conhecido como “O Último Capítulo”. São três histórias interligadas, com o mesmo personagem central. No passado, Tom (Hugh Jackman) é um cavaleiro do séc. XVI que sai em busca da Árvore da Vida nas selvas da Guatemala de acordo com orientações escritas no Gênese. Seu objetivo seria, com isso, salvar a rainha Isabel (Rachel Weisz) das mãos da Inquisição Espanhola. No presente, o cientista Tomas tenta salvar sua mulher com um tumor no cérebro, mas recusa sua súplica em passar os últimos instantes com a mulher Izzi para trabalhar incessantemente no laboratório procurando por uma cura. Passam-se os dias e ele luta contra o tempo, recusando a companhia da mulher que ama numa maneira inconsciente de negar o que está prestes a acontecer. Izzi está escrevendo um romance histórico e pede ao marido que escreva o último capítulo. Já no futuro, Tom viaja pelo Universo com uma árvore que traz as memórias de sua falecida esposa, rumo a uma galáxia distante onde uma estrela está prestes a explodir.

É um filme com pretensões ambiciosas, mas ficamos em dúvida se foi possível alcançá-la. A história trata do tema da Morte no ciclo eterno da Vida, de forma que o Amor seria o elo possível entre uma coisa e outra. Símbolos interessantes são explorados ao longo do filme, como a jornada do Herói e o Sacrifício, e evidentemente a Árvore que representa a Vida em si, mas que também traz a Morte consigo.

Pra ser visto com disponibilidade de tempo e com exigência de atenção.

Para assistir: Parte Única pelo Fileserve. 
Sobre o filme: Áudio em inglês, legendas em português. 
Palavras-chave: Existência, Morte, Vida, Romance, Idade Média, Contemporaneidade, Futurista.

O LABIRINTO DO FAUNO (Guillermo del Toro, 2006)



Sem dúvida é um filme mágico e apaixonante. Del Toro conseguiu captar uma série de mensagens simbólicas e mitológicas e incorporá-las ao filme com maestria. Dentre várias outras interpretações, O Labirinto do Fauno nada mais é que uma jornada mítica, lunar e iniciática de descida ao Submundo.

A história se passa no período histórico das repercussões da Guerra Espanhola. Ofélia (Ivana Baquero) é uma menina órfã de pai que se muda, junto à sua mãe, Carmen (Adriana Gil) para a casa do seu padrasto, o rígido Capitão Vidal (Sergi López). Carmen ensina sua filha a chamar seu novo marido de pai, mas Ofélia ignora totalmente esse pedido da mãe. O mundo em que se encontram atualmente é um mundo de morte, de conflitos violentos e da ditadura fascista. Mas Ofélia como ama ler romances, acaba vivendo um mundo paralelo, maravilhoso e mágico. Conversa com fadas e, por uma delas, é atraída até um labirinto que a leva a uma caverna escondida no submundo, e lá encontra um fauno (Doug Jones) que lhe revela sua nova natureza: Na verdade ela é uma princesa e deve cumprir uma série de obrigações para ser reconhecida como divina.

Algo familiar? A história de Ofélia é claramente inspirada no mito de Prosérpina e Deméter. Mãe e filha muito unidas, passam por um rompimento quando a mais nova desce ao submundo e encontra lá sua verdadeira natureza. O labirinto nada mais é que uma metáfora para a jornada iniciática e do sagrado feminino. O simbolismo da gruta em que Ofélia encontra o Fauno também torna esse especto do submundo e do inconsciente evidentes. Quando perguntado sobre seu nome, o Fauno diz que já foi chamado por muitos nomes, "nomes velhos que apenas o vento e as árvores podem pronunciar. Eu sou a montanha, a floresta e a terra". Nada mais que Pã: pan, "tudo".

Abaixo, algumas cenas do filme: 

Ofélia, logo de início, enfrente a rigidez do seu padrasto, Capitão Vidal.
A fenda na árvore oca também pode ser  uma metáfora para o ventre do Submundo.
Instruída pelo Fauno, Ofélia se utiliza de uma Mandrágora para curar sua mãe. 
Um dos testes de Ofélia: passar por um rico banquete sem provar de nenhuma fruta.
A menina de frente para o labirinto que leva até o Fauno
O Fauno e sua iniciada. 
Ofélia tem que cumprir suas três missões antes de que a lua fique cheia. Isso também torna-se um reflexo dos mitos lunares onde a lua está relacionada a escuridão, ao feminino e ao inconsciente. O "três" também torna-se um símbolo interessante, pois é a quantidade de noites em que a lua desaparece totalmente do céu antes de aparecer pela primeira vez, entre a lua nova e a lua crescente. É o passado, o presente e o futuro. São as três faces de Hécate, deusa do submundo e da noite.

Ao longo da jornada iniciática de Ofélia vários outros mitos são levados em consideração e o caminho termina, então, com a questão sacrificial. A morte para o renascimento.

Palavras-chave: MitologiaMagiaIniciaçãoContos de fadasPós-guerra.

VALENTE (Mark Andrews, 2012)


Folder original do filme,
da Disney e Pixar.

Diferente de algumas críticas que li a respeito, Valente, ou “Brave” é inovador. A história fala de uma jovem princesa, Merida, que rompendo com as expectativas tanto dos expectadores desavisados da animação, quanto da sua família na ficção, não quer se casar. Diferente disso, Merida gosta de cavalgar sozinha pelas planícies do seu reino medieval (aparentemente uma Escócia celta), tem os cabelos ruivos desgrenhados e se incomoda com o vestido justo que sua mãe, a rainha Elinor, insiste que use.  É difícil não se apaixonar por essa princesa, que usa toda a sua graciosidade não nas danças com os príncipes, mas no seu manejo com o arco e a flecha. Uma princesa um pouco diferente dos moldes clássicos da Disney.


A rainha insiste que a filha tenha modos, que se comporte como uma princesa, e que se prepare para o casamento, levando muitas vezes a criança a exaustão. Quando a rainha e o rei, Fergus, comunicam a donzela que a escolha do seu noivo está próxima, Merida resolve recorrer a uma bruxa (engraçadíssima, que prefere ser chamada de “carpinteira”) para fazer um feitiço na tentativa de mudar a ideia da sua mãe quanto ao casamento, mas nem tudo sai como planejado. A história se desdobra em uma série de acontecimentos surpreendentes que não deixam de ser reveladores.

Resolvi trazer esse filme para o blog, em primeiro lugar, mas não necessariamente por ordem de importância, o filme seduz pela sua atmosfera pagã. Como já dito, o filme passa nas planícies de uma Escócia celta e medieval, em meio a uma natureza abundante, por vezes ensolarada ou com círculos de pedras erguidas em meio às brumas: uma estética que salta aos olhos de um observador atento. Em segundo lugar, pelo que a princesa Merida representa: assim como a grega Ártemis, é retratada como uma jovem independente, protegida pelo pai (pois incorpora muito dessa identidade masculina) que rompe com o discurso de dama indefesa que precisa ser salva pelo príncipe corajoso. E assim como Ártemis, Merida também porta o arco e a aljava, como símbolo da sua independência, da sua garra e determinação.

Em terceiro lugar, a bruxa aqui representada também de certa forma quebra com o discurso de bruxa má, tão estereotipado na cultura popular e eternizado pela Disney. A bruxa, que insiste em ser chamada de “carpinteira” – e aqui fica o Mistério para os que sabem lê-lo – não tem intenções malignas, muito pelo contrário, só concede aos que a procuram, aquilo que querem. A bruxa está acompanhada de seu familiar, um corvo, e vive isolada da aldeia, como se longe do mundo profano. É através dela que o Mistério é revelado, bem como é ela que mostra o quão desconhecedores são aqueles que buscam o seu auxílio. Isso também não é muito diferente da nossa realidade.

Princesa Merida, com uma espada empunhada, o que já a diferencia das princesas tradicionais. 
A princesa no estilo de uma "Ártemis" celta. 
Enquanto que Merida tem os cabelos ruivos e desgrenhados simbolizando sua força, a mãe, diferente disso, possui os cabelos escuros sempre alinhados, também reflexo da sua personalidade. 
Merida em um círculo mágico de pedras ancestrais.
Por último, e não menos importante, o filme também fala da experiência mitológica. A todo o instante somos levados a crer que histórias nunca são somente histórias, mas que lendas e mitos sempre contém verdades que devem ser descobertas e respeitadas. “Lendas são lições. São cheias de verdades” a narradora insiste em certo momento.

Para assistir: Legendado por Uploaded, legendado por torrent, dublado por Uploaded, dublado por torrent.
Sobre o filme: Colorido, áudio em inglês ou português, legendas em inglês.
Palavras-chave: PaganismoMagiaCeltasAventura, Idade Média.

PARANORMAN (Chris Butler, Sam Fell, 2012)


Cartaz da animação. 

Assim como a animação "Valente", indicado ao Oscar de melhor animação, Paranorman conta a história do solitário menino Norman Babcock, que passa a maior parte do seu tempo apreciando filmes de terror e conversando com espíritos, pois sim, ele tem essa habilidade. Poder, inclusive, que o faz ser ridicularizado na escola, sofrendo bullying de Alvin, o valentão, e perder a credibilidade com a sua família que nunca acreditou nos seus dons. É ainda na escola que conhece Neil, o único que acredita na habilidade de Norman de conversar com os mortos. 

O garoto é contatado pelo seu tio, Prenderghast, tido com o louco da cidade que também tem o mesmo poder que o sobrinho. Avisa o garoto que deve evitar que se concretize uma maldição lançada por uma bruxa há três séculos atrás. A história, de idas e vindas, tem início nesse momento.

O que me fez trazer o filme para o blog foi a maneira pela qual o tema “bruxaria” foi utilizado para falar de uma série de coisas que há anos conversamos nesse espaço, ainda que o filme tenha traduzido esses assuntos  para o universo infantil. O filme arrisca falar sobre o medo que as pessoas tem do desconhecido, e de como a posição de desconhecedor pode soar como ameaçadora para pessoas desavisadas. Frente ao que não se conhece, o homem, quando não ridiculariza, sente a necessidade de extirpar o que entende por “mal”. As “bruxas” históricas sofreram desse mal, ainda que saibamos que nem sempre, de fato, fossem praticantes de bruxaria. E o filme também toca nessa ferida.

Mais do que falar sobre o sentimento de ameaça do ser humano frente aquilo que ele desconhece, a história também fala da massa de ignorantes que pode ser movida de forma ofensiva e ameaçadora, tanto pela turba, quanto pela falta de reflexão. A animação, ainda sob uma estética aparentemente infantil, brinca com o lúgubre e a solidão como uma resposta a esse mundo de “luzes” que não iluminam mais que a superfície das coisas.


Norman e o espírito de sua avó. Aqui, como uma espécie de "ancestral protetora". 
Os zumbis atrás da turma de Norman
Os zumbis são, na verdade, os acusadores da um crime de bruxaria que não descansarão enquanto a verdade do julgamento não for revelada. 
Norman e a "bruxa". 
Norman é aficionado por histórias de terror, e a forma pelo qual a história é contada (com o garoto muitas vezes assistindo filmes dentro do filme) traduz justamente a ideia de que os monstros da ficção não são necessariamente muito diferentes dos monstros da vida real. É desse jeito que o filme não só satiriza, mas também homenageia os clássicos do terror com uma produção impecável. 

Para assistir: Legendado via Uploaded, legendado via torrent, dublado via Uploaded ou dublado via torrent. 
Sobre o filme: Colorido, áudio em português ou inglês, legendas em português. 
Palavras-chave: AnimaçãoAventuraMistérioTerrorBruxariaZumbisContemporaneidade


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"Uma coisa bela persuade por si mesma, sem necessidade de um orador."

Shakespeare. 

7 comentários:

Belchior Torres disse...

tenho o Haxan, é realmente uma obra recomendadissíma, faz uma abordagem histórica dentro de uma perspectiva e olhares da época, principalmente da própria igreja. vejam.

Qelimath disse...

Na mesma veia que o Haxan, veja se encontra o The Saragossa Manuscript. Fantástico!

Azezel Semjaza Lvnae disse...

Parabéns...
Filmes que realmente nos inspiram

Piter Monteiro disse...

Mt boa a lista.

"Da magia à sedução" é irresistível, eu vejo e revejo sempre... A cena das meninas com as tias naquela mesa lindo no jardim, gatos sobre a mesa.. incrível... Francamente eu considero um dos, senão, O filme hollywoodiano que aborda o tema da melhor maneira possível.

Vera Falcão disse...

Muito boa a seleção, grata! Só tenho uma dúvida: quando o filme vem no arquivo avi, sem as legendas e elas são baixadas depois, como uni-los? Pergunta de neófita no assunto, sempre baixo filmes em rmvb, já com as legendas. Continuo amando o blog, beijo!

Vera Falcão disse...

Já solucionei meu problema!

Tauan Queiroz disse...

Agora com a morte do MegaUpload, você tem algum outro link para baixar os filmes com esse diretório?